Semanalmente, aos sábados ou domingos, saíamos de nossa cidade e viajávamos menos de uma hora até Săo Paulo, para desfrutar as tardes sempre no mesmo motel, nas imediaçőes da Marginal Tietę... Passados vinte anos, ele ainda está lá, com suas piscinas de tecto solar e a pequena sauna, que sempre foi um dos prazeres de A...

Despíamo-nos e ela repetia um ritual de higiene e maquilhagem que nunca me desagradou. Depois, do banheiro, caminhava em direcçăo ŕ cama, nua, a pele clara desenhando um corpo quase translúcido, pés e măos esmaltados em tons leves e um sedutor batom vermelho nos lábios. Ela sorria. Os olhos verdes, cujas pupilas eram circundadas por um estreito círculo alaranjado, mesmo que năo fossem, há muito, um enigma para mim, ainda incendiavam minha alma.

Pouco restava de nós quando os primeiros fios da noite vinham manchar nossos lençóis, húmidos de prazer e suor. Deitados, lado a lado, sob o zunido tranquilo do ar condicionado, conversávamos, ríamos, ousávamos planejar um futuro que, em muito, năo se concretizou.

Foi num desses finais de tarde que ela me contou sobre um livro... Um romance que acabara de ler, mais um entre tantos best-sellers, no qual a heroína, além de ser amarrada ŕ cama, tornava-se objecto das mais incríveis sevícias de seus sequestradores.

De imediato, surpreendeu-me que ela se referisse ŕ história sem qualquer repugnância. Ao contrário, suas pupilas dilatavam-se, os olhos brilhavam, um sorriso insinuava-se no rosto iluminado, seus gestos cresciam, empolgavam-se. Percebi que tudo aquilo a tocara de uma forma especial e deixei escapar: - Vocę gostaria de copiar o livro?

Ainda a vejo, deitada ao meu lado, paralisada pela pergunta, a respiraçăo acelerada, olhando-me como que em choque, dividida entre o medo e o desejo. - Gostaria?, insisti, debruçando-me sobre o seu rosto e enfiando minha măo entre suas coxas, descobrindo uma vagina estonteantemente molhada. Ela respondeu ao toque com um leve gemido e perguntou, quase num pedido: - Vocę teria coragem?

Deixei que meu dedo anelar escorregasse lentamente para dentro dela e sussurrei ao seu ouvido: - Se for para fazer vocę feliz, por que năo? Tirei meu dedo muito devagar, minha măo percorreu o corpo trémulo até ŕ nuca e trouxe-a para mais perto de mim: - O que vocę quer primeiro? Arfando, hesitante, ela me implorou: - Me bate! Na cara... Por um instante, confesso, temi năo ter coragem. Uma sensaçăo de enfraquecimento percorreu o meu braço direito.

A ideia, contudo, fora minha; como năo levá-la adiante? Coloquei-me de joelhos sobre o seu quadril, prendi suas măos com minhas pernas e ergui meu braço. Eu năo conseguiria, com certeza năo. Ela crispou os olhos e esperava, tensa. Eu aguardava uma ordem, uma voz interior. E ela veio como um impulso, uma detonaçăo, meu braço descendo sobre o rosto que eu nunca pensara macular. Ao mesmo tempo, meu pénis latejava numa erecçăo exuberante.

Continuei, numa sequęncia de tapas, primeiro com a măo direita e, depois, com a esquerda. E depois alternando as măos, quase descontrolado. Ela gemia alto, oferecia o rosto, deliciava-se com a violęncia, com a dor. Em mim, a sensaçăo de uma energia represada que se expandia de súbito, arrebentando tudo ŕ sua frente, quase me cegava, quando ela começou a implorar, aos gritos: - Me fode!

Me fode!... O animal que nascera em mim rugia... Com minhas patas, coloquei-a de quatro e lancei-me sobre ela, penetrando-a com violęncia e, segurando-a pelos cabelos, puxava-a contra o meu corpo. Gozamos rapidamente e, caídos lado a lado, começamos a rir...

Depois daquela tarde, nossos encontros nunca mais foram os mesmos. Passávamos a semana elaborando nossas fantasias com os mais delicados pormenores. Cada subtileza trazia uma excitaçăo diferente, um novo calor. Éramos căes farejando o novo, descobrindo uma trilha incandescente para, no final, exaustos, encontrarmos o mais profundo de nós mesmos.

O mais belo é que nada tinha nome... E, a cada avanço, líamos Sade, partilhávamos sonhos da infância - eu assistia os seriados na tevę querendo sempre ser o vilăo; ela sempre se excitara com a mocinha amarrada aos trilhos, enquanto o trem se aproximava - e alimentávamos dezenas de fantasias...

Há anos que năo vejo A... Em determinado momento ela pareceu cansar-se de tudo. Eu năo. Mesmo hoje, passados todos estes anos, agora que tudo está nomeado e classificado, o BDSM ainda me reserva a sua parcela de fantasia, de rejuvenescimento.

Minha măo já năo se ergue movida por um impulso incontrolável, mas a pulsăo é a mesma. E as técnicas que a prática me concedeu só adicionaram sabor ŕ arte da dominaçăo.